Focinheira, António Botêlho; 1890/1936; escritor; português,
supostamente acompanhou desde seus albores o movimento modernista
luso, tendo pertencido à geração de Álvaro de Campos, Ricardo Reis
e Alberto Caeiro com os quais conviveu nas redações de O Jornal e A
Revista. Foi seu preceptor o Barão de Teive.
Frederico era o seu nome de batismo e isso há mais de quarenta
anos. Mas Elza, Elzinha, a mulher, jamais o chamava pelo nome. Era
Fred na maior parte do tempo, por assim dizer, no dia-a-dia
doméstico. É bem verdade que, às vezes, principalmente quando ela
pretendia se insinuar ou queria alguma coisa dele, usava chamá-lo
Derico, num tom entre a malícia e o carinho. A convivência -
estavam casados já ia de sete para oito anos - havia ensinado a ele
reconhecer, conforme a situação, quando era Fred e quando era
Derico e, também reconhecer-se a si como um ou outro e agir em
consonância.E assim, sem grandes sobressaltos existenciais,
transcorria o cotidiano de nosso amigo Frederico.Naquele começo de
noite, depois do jantar, estava ele na copa, folheando o jornal,
quando ouviu claramente, na cozinha, Elza dizer:- Outra vez, Fred,
tomando comprimido. Remédio demais faz mais mal do que bem, Fred.
Vê se procura um médico para tratar dessa enxaqueca.Ele estava a
ponto de dizer que não ia tomar comprimido nenhum e que tampouco
estava com dor de cabeça, mas viu nitidamente dois vultos na
cozinha e, logo depois, viu a si mesmo passar com o copo de água na
mão, em direção ao quarto.Deixou-se ficar ali, sentado, catatônico
e contemplativo.Elza terminou com a louça e levou a filha menor ao
banheiro para escovar os dentes. Daí a pouco, ele ouviu-a dizer à
menina:- O papai já deitou porque está com dor de cabeça, meu bem.
Vá lá pedir-lhe a bênção que depois a mamãe vai botar você para
dormir.Frederico viu a menina entrar no quarto, no quarto dele, e
de onde estava ouviu sua própria voz vinda de lá:- Durma com Deus,
minha filha, tenha bons sonhos.Frederico continuava sentado à mesa
da copa, mudo e quedo. Via tudo e todos, mas ninguém parecia notar
sua presença, era como se ele não existisse.Dentro da sua cabeça
continuava ecoando a frase dita por sua própria voz:- Durma com
Deus, minha filha, tenha bons sonhos.É isso, pensou. Só pode ser
isso; devo estar sonhando. Com certeza estou tendo um pesadelo,
preciso acordar e acabar com isso.Queria levantar-se e ir para a
cama, mas suas pernas não lhe obedeciam.Já era alta madrugada
quando, finalmente, conseguiu levantar-se e ir para o quarto.Entrou
e estancou ainda na porta, surpreso ao ver na cama, placidamente
adormecidos, Elza e ele. Sim, ele mesmo, Frederico, estava lá,
dormindo com a mulher.Como poderia ele, assim de repente ter virado
dois? Um na cama e outro fora dela? Estou é ficando completamente
maluco, pensou.Estava atordoado. Foi até a cozinha o mais
silenciosamente que pode. Bebeu um copo de água com açúcar e veio
para a sala tomando todo cuidado para não fazer qualquer ruído. Na
sala deixou-se afundar no sofá e ficou um largo tempo embrenhado
num cipoal de pensamentos desencontrados, mas sem conseguir achar
nenhuma pista, nenhum indício de como superar aquela situação
completamente absurda, inusitada, sem sentido.- Fred! Acorda
Fred.Era Elza chamando por ele.Abriu devagar os olhos e viu-a em pé
na sua frente, com uma xícara de café nas mãos.- Um cafezinho para
o papai acordar. Acabei de passar agorinha... E, afinal, o que é
que o senhor está fazendo aqui? Porque é que o senhor saiu da cama
e veio dormir na sala?Frederico ensaiou dizer alguma coisa, mas a
mulher continuou:- Foi essa miserável dessa enxaqueca não é? Eu já
estou cansada de falar para você procurar um médico, mas você não
me ouve...- Assim que eu tiver um tempo eu vou marcar. O Guedes lá
da repartição me falou de um doutor - acho que é cefaléia o nome da
especialidade - que é batata, não tem erro.- Você promete?- Pode
deixar, você vai ver. Agora eu preciso fazer a barba e tomar um
banho porque o dever me chama.O dia transcorreu normalíssimo.
Frederico voltara a ser ele mesmo.Já de volta à casa, no fim da
tarde, lendo seu jornal, lembrou-se do episódio da noite anterior e
se reconfortou com o simples pensamento de que tudo não devia mesmo
ter passado de um reles, um prosaico pesadelo.Passou-se uma semana,
duas, três e tudo normal.Frederico marcou consulta com o
especialista que o Guedes indicara e fez uma porção de exames que
foram pedidos. Tudo parecia estar muito bem, obrigado. Ele se
sentia realmente ótimo. Como num passe de mágica, a simples
consulta com o médico o livrara daquela enxaqueca crônica,
recorrente.Elza estava radiante:- Bem que eu tinha falado para
você procurar um médico. E mais de uma vez, hein? Viu como a sua
mulherzinha aqui tinha razão?- É verdade, meu bem, é verdade. Hoje
está fazendo um mês, um mês inteirinho sem nenhuma enxaquecazinha.
Isso é que é vida, hein Elzinha?Na manhã seguinte, Frederico estava
com a cara toda ensaboada, pronto para se barbear, quando um
detalhe no espelho chamou sua atenção.Aproximou um pouco mais o
rosto do espelho e apertou com o polegar e o indicador o alto do
nariz, bem perto dos olhos. Realmente havia uma espécie de baixo
relevo ali; eram marcas fundas, uma de cada lado do nariz, como se
ele sempre tivesse usado óculos.Mas que diabo é isto se eu só uso
óculos de sol e mesmo assim só de vez em quando. Pois essa é muito
boa ele pensou, agora me dá de aparecer um enigma debaixo do meu
nariz.Sorriu do seu próprio pensamento, afinal não era em baixo,
era em cima, no alto do nariz.Voltou sua atenção para a barba, ou
melhor, para o espelho.Enquanto passava o aparelho e a lâmina ia
abrindo sulcos na espuma, Frederico ficou olhando num ponto vazio,
o olhar distraído, sem saber ao certo o que pensar.Foi inevitável
lembrar-se então do pesadelo de um mês atrás. Pesadelo ou sabe-se
lá o que fosse. A verdade é que Frederico não falara daquilo com
ninguém. Nem com o Guedes. Teve um dia que ele quase contou para o
Guedes; estava ansioso para dividir seu segredo com alguém, mas não
sabia nem por onde começar.Vai achar que eu endoidei de vez. Deixa
para lá.Calou-se.Para Elzinha é que ele não ia contar de jeito
nenhum, que esperança. Ela era bem capaz de ter um troço se ouvisse
aquela estória mais alucinada.Feita a barba ele entrou no chuveiro.
E enquanto se banhava ficou assobiando distraidamente uma velha
modinha de carnaval.Estava em frente ao espelho do quarto de
vestir, dando o nó na gravata quando ouviu a modinha sendo
assobiada no banheiro. Tinha certeza de ter escutado.Apurou o
ouvido, mas tudo era silêncio; a música desaparecera de repente e
por completo.Decerto foi impressão minha. Acho que eu ando é meio
estressado.Vestiu o paletó e foi até a cozinha dar um beijo de
despedida na Elzinha.- Estou indo trabalhar, querida. Até a noite.-
Vê se você se cuida, hein seu moço?O trabalho naquele dia tinha
sido bem puxado. Para uma sexta-feira, puxado até demais.Ao final
do expediente o Guedes arrastou-o para um ‘happy end' no
Boteco Alegre, três quadras abaixo, na esquina da Rua do Alecrim
com a da Boa Sorte. De quando em vez, emborcavam ali uma meia dúzia
de cervejas ao longo de duas horinhas ou um pouco mais de um papo
descontraído e sem compromisso. Eram amigos de longa data. Tinham
sido admitidos no serviço público quase que ao mesmo tempo e desde
logo houve empatia entre os dois. E tornaram-se bons amigos.Para
Frederico a cerveja era um poderoso diurético. Não demorou muito
para que ele se levantasse da mesa:- Vou tirar uma água do joelho e
já volto, disse indo em direção ao banheiro.- Tudo bem, vai lá.
Enquanto isso vou pedir mais duas geladinhas e mandar renovar a
porçãozinha de queijo...- Eu volto já. Tenho uma coisa muito
importante para contar a você. Estive criando coragem, mas de hoje
não passa, portanto me aguarde.Guedes não conseguiu disfarçar o
susto:- Tem alguma coisa a ver com a Elzinha? - quis saber.Mas
Frederico, já de costas para o amigo e a caminho do banheiro,
sequer ouviu a pergunta. Passaram-se dez, quinze minutos e, como
Frederico não voltava para a mesa, o Guedes foi procurá-lo.Já
estava empurrando a porta do banheiro quando avistou o amigo, numa
mesa próxima, conversando animadamente com uma loira. Era uma
mulher jovem e bonita e trajava um vestido vermelho justo e bem
decotado. Guedes tinha a mais completa certeza de nunca a ter visto
antes. Achou constrangedor se aproximar assim sem mais nem menos. E
se fosse uma conquista recente do amigo? Pegaria mal ele se meter
na conversa, invadir a privacidade do casal. Talvez Frederico
ficasse bronqueado; era melhor fazer de conta que não tinha visto
nada. Optou por entrar no banheiro.Alguns minutos depois Guedes
voltava para a mesa e, para sua surpresa, Frederico já estava lá
com o copo de cerveja na mão.Os olhos do Guedes passearam por todo
o recinto a procura da loira, mas nem sinal dela. Desaparecera como
por encantoGuedes sentou-se. Encheu seu copo e ia perguntar da
loira, mas desistiu. Ao invés disso foi direto:- E então,
posso saber o que é que o amigo tem de tão importante para me
contar? Contar, eu? De onde é que você tirou isso?- Ué... Você
me disse agorinha mesmo que tinha alguma coisa de muito importante
para me contar... Tinha tomado coragem... Que de hoje não passava.
Foi ao banheiro, depois conversou com a loira... Estou curioso para
saber...- Meu caro Guedes! Você precisa parar de beber - disse
Frederico interrompendo o amigo - você está brincando comigo, eu
não fui a banheiro nenhum e nem falei com nenhuma loira. Você é que
foi ao banheiro, eu fiquei aqui bebendo.- Ora, ora, ora... Um de
nós dois está ficando doido.- Eu é que não sou.- E eu muito menos.A
conversa tinha chegado a um impasse aparentemente intransponível.
Nenhum dos dois estava brincando; falavam sério e não pareciam
dispostos a transigir.Calaram-se por longos e arrastados minutos.
Guedes foi o primeiro a quebrar o gelo:- Já está ficando meio
tarde, hein?- É verdade. E eu estou enjoado de tanta cerveja,
sabe?Pediram a conta e dividiram fraternalmente a despesa.
Despediram-se:- Até segunda, então.- Até segunda. Bom final de
semana.- Para você também. Lembranças à Elzinha.Frederico ia já a
uns trinta ou quarenta passos quando pensou ter ouvido o Guedes
chamá-lo e voltou-se para olhar.Ninguém chamara, mas para sua
surpresa viu que o Guedes ainda estava lá sentado. Dizia alguma
coisa a uma loira muito bonita, jovem ainda e que trajava um
vestido vermelho justo e com um generoso decote.Então era isso -
pensou - se me dissesse que tinha um encontro eu entenderia, não
precisava de toda aquela encenação.O final de semana transcorreu
quase todo que na mais absoluta normalidade.No sábado, como em
tantos outros sábados, almoço na casa da sogra.Logo pela manhã,
Elzinha convocara a filha e o marido:- Hoje vamos almoçar na
vovó, viu mocinha? Vamos recolher esses brinquedos do chão; a mamãe
ajuda, vamos. E você também, querido, que tal tirar esse pijama e
se aprontar?Voltaram lá pelas dez da noite; Lúcia já chegou
dormindo. E uma hora depois Frederico e Elzinha também estavam na
cama.- Sabe, Elzinha, hoje mais uma vez eu notei uma coisa. A sua
mãe é muito apegada com a Lúcia, mas eu acho que ela não gosta do
Cristiano.- Mas que idéia! Como é que você pode pensar assim da
mamãe? Ela adorava o Cris. Lembra? Foram meses e meses que o Cris
esteve doente e a mamãe não arredava pé da cabeceira dele...- É,
mas eu acho que ela não gosta mais dele... Só gosta mesmo é da
irmãzinha dele... É Lúcia prá cá, Lúcia prá lá, presentinho prá
Lúcia...- Nossa, Fred, veja lá como você fala. Nem pense nisso...
Como pode... Que coisa mais mórbida... Vamos dormir querido.
Esquece isso, deixa para lá.No domingo Elzinha caprichou numa bela
macarronada com filés à parmegiana e Frederico abriu um tinto
seco.- Este vinho foi presente do Guedes - disse Frederico como
quem pensa alto.- Por falar no Guedes, você disse que ele
estava meio estranho na sexta-feira, mas que você não queria falar
no assunto. Afinal, o que é que houve Fred?- Ah. Não é nada
importante, não, depois eu conto...- E quando é que eu vou
finalmente ficar conhecendo o seu amigo, hein? Faz anos que vocês
são amigos, trabalham juntos e eu nunca fui apresentada a ele.-
Pode deixar que não faltará ocasião, Elzinha.- Pois é. Até uns
tempos atrás você vivia dizendo que ia trazê-lo aqui em casa uma
hora qualquer ou num domingo para o almoço e nunca que isso
aconteceu. E depois de um tempo você nem tocou mais no assunto.-
Qualquer dia desses, qualquer dia desses... Você vai
ver...Terminaram de almoçar. Elzinha serviu queijo com goiabada de
sobremesa e Lúcia quis repetir. Depois, Fred ajudou Elzinha com a
louça, enxugando e guardando os pratos e talheres.- Fred querido -
disse Elzinha - você se importa que eu vá até a casa da Olívia
ensiná-la a fazer aquele bolo de frutas de que você tanto gosta?- A
Olívia é a nossa vizinha aqui do lado, não é?- É sim, você conhece
o marido dela...- Eu sei quem é, chama-se Jorge. Está bem, e a
Lúcia? Você quer que ela fique aqui comigo?- Não, não. Eu levo
a Lúcia, tudo bem?- Com uma condição.- E essa agora! Diga que
condição é essa.- Que vocês façam dois bolos ao invés de um só. Um
deles você trás para casa, feito?- Feito, seu velhaco de marca
maior!Elzinha saiu.E Fred foi direto para o quarto do Cristiano
onde ficou brincando com o filho até a noite.Só saiu de lá quando
Elzinha voltou com o bolo.Elzinha, durante toda tarde do domingo,
enquanto esteve às voltas com os bolos, aproveitou para fazer da
vizinha Olívia sua confidente.- Sabe, Vivi - era assim que a
chamava - eu ando um pouco preocupada com o Fred... Ele anda meio
estranho...- Como assim, estranho?- Olha, nem sei explicar
direito... Ele tinha uma enxaqueca crônica... Eu achava que talvez
fosse isso. Imagina que uma noite ele levantou da cama e foi dormir
na sala de tanta dor de cabeça... Mas depois que ele esteve com o
médico que o Guedes indicou...- Quem é esse Guedes?- Ah! Desculpe,
Vivi. O Guedes é um amigo do Fred lá da repartição. Olha, vou dizer
uma coisa para você: acho que o Guedes é o único amigo, amigo
mesmo, de verdade, que o Fred tem, sabe?- Bem, o seu marido é mesmo
todo caladão, com cara de poucos amigos...- Mas ele não era
assim não, Vivi. Nunca foi muito expansivo, mas também não é nenhum
troglolodita, nenhum homem das cavernas...- Nem eu disse isso,
Elzinha.- Eu sei Vivi, eu sei.- E aí? Você estava dizendo que ele
foi ao médico e...- Pois é. Era uma vez a enxaqueca; nunca mais
voltou a ter nenhuma dorzinha de cabeça. E, no entanto, ele
continua estranho.- Mas estranho como?- Imagina que fazia já um mês
ou mais que ele não tinha enxaqueca e um dia ele me aparece na
cozinha e me pergunta se eu tinha visto seus óculos de leitura...-
Isso não tem nada demais. O Jorge vive me perguntando a mesmíssima
coisa.- Mas acontece que o Fred não usa óculos para ler, entende?-
Então ele estava brincando.- Não me pareceu, não. Ontem mesmo,
quando voltamos da mamãe, já estávamos deitados e ele me vem com a
conversa de que a mamãe não gostava do Cris. Imagine se pode. O
tanto que ela sofreu aqueles meses todos. Sofreu tanto quanto eu,
talvez até mais... Estavam nesse ponto quando Jorge entrou na
cozinha:- E aí, esse bolo sai ou não sai?- Está quase pronto,
querido - respondeu Olívia.- Pois quando ficar pronto eu vou, de
bom grado, aceitar um pedaço, mas desde que ele venha acompanhado
de um cafezinho passado na hora. Estarei aguardando, viu?Jorge
voltou para a sala e Elzinha acrescentou:-Pois é, Vivi. A verdade é
que eu ando um bocado preocupada com o Fred. Estive até pensando em
procurar o Guedes... Você acredita que eu nem conheço o Guedes?-
Não?- Não. Ele é o melhor amigo, quem sabe o único amigo do meu
marido e eu nem o conheço! Pensei em procurá-lo, ir até a
repartição. Quem sabe o Fred disse a ele alguma coisa que nem eu
mesma sei... O que você acha?- Não sei não, Elzinha. Você conhece o
seu marido melhor do que eu. Eu não faço a menor idéia da reação
que ele possa ter.Pouco depois Elzinha se despedia de Olívia e
Jorge e voltava para casa com a filha e o bolo do Fred.No exato
instante em que Frederico saia do quarto do filho, Elza estava
chegando:- Posso saber o que é que você estava fazendo aí? -
perguntou.A pequena Lúcia correu para os braços do pai que a pegou
no colo.- Nada demais - retrucou Frederico - eu gosto de brincar um
pouco com o Cris, quer dizer, com os brinquedos dele. Não há nada
de mal nisso. Vejo que trouxe o nosso bolo, hein?- Claro que
trouxe, mas ainda está quente. Não dá para comer agora.- Não temos
pressa, tudo bem.Elza olhava para Frederico emoldurado pela porta
do quarto do Cris e com Lúcia ao colo como se o estivesse vendo
pela primeira vez. Nunca tinha sentido antes essa sensação.Estou
casada com esse homem há quase dez anos, pai dos meus dois filhos,
o único homem que amei e, Santo Deus, não faço idéia de quem é esse
homem! - disse Elza para si mesma.Nem ela própria sabia ainda, mas
sua decisão de procurar pelo Guedes já tinha sido tomada.Elza
passou toda a noite e mal pregou o olho. Rememorou uma a uma as
circunstâncias que lhe causavam inquietação e que eram muitas.
Incomodava-a além da conta aquilo que Fred falara sobre a mãe dela
e, até mais do que isso, aquela estória de brincar no quarto do
Cris, com o Cris, com os brinquedos do Cris...Na manhã seguinte a
vida tomou seu curso natural de toda segunda-feira: Frederico
deixou Lúcia na escolinha e foi para a repartição; Elza ocupou-se
dos afazeres da casa.Lá pelas duas da tarde Elzinha tomou coragem e
foi procurar pelo Guedes.Na recepção, identificou-se:- Sou a Elza,
esposa do Frederico, gostaria muito de falar com o senhor Guedes
que é amigo dele.- Guedes? - estranhou a recepcionista - não
conheço, não.Ao ouvir isso Elza sentiu um calafrio, mas a
recepcionista continuou:- Eu sou nova aqui, não conheço todo mundo
ainda, dona Elza. Um momento que eu vou ver se consigo alguém do
Departamento Pessoal para atendê-la.Dez minutos depois Elza estava
na sala da encarregada:- Mas dona Elza, então a senhora não sabe,
seu marido não lhe contou... Faz dois anos ou está para fazer por
esses dias... Eu sinto muito... Muito mesmo... Foi naquela mesma
semana que o menino de vocês faleceu... O Cristiano, não é?
Uma fatalidade, um acidente terrível, perder o filho e o
amigo na mesma semana.Elza sentiu um nó na garganta e não conseguiu
articular nenhuma frase, nenhuma palavra. Ali mesmo, na frente da
encarregada, começou a chorar...